É possível compreender a importância e o papel das estratégias de marketing na promoção duma cidade, por referência, afirmação duma identidade e por atribuição de valores nos seus aspectos sociais, patrimoniais e económicos.
É mesmo possível aceitar que essa estratégia se reduza à definição duma marca, reduzindo o seu universo diversificado a uma identidade única como um detergente para a lavar a loiça, ou uma marca de sapatos.
Já não é possível reconhecer ou aceitar valor à recente campanha de marketing da marca que pretende marcar a cidade de Faro.
Por duas razões muito simples.
A primeira é a de que a cidade de Faro não apresenta na sua história recente, referências e exemplos de conceitos e acções com distinção no aspecto social. Porque é das cidades algarvias a que apresenta maiores problemas na resolução da habitação digna para as populações mais carenciadas. Porque tem problemas de acessibilidades gravíssimos intensificados pela sua condição de cidade política, ou de poder se se quiser. E porque não tem demonstrado capacidade de inverter uma decadência da actividade comercial e cultural.
A segunda é a relação com o património, em que salvo raras e honrosas excepções de gestão e actuação, não pode ser considerada uma cidade com especial distinção na sua gestão urbanística e valorização patrimonial (caso não tenham notado, reparem no desenho e traçado urbano da sua entrada a poente, com o isolamento da Horta das Figuras; no desconcertante encaixe do seu teatro; na degradante e perigosa relação com a ria, na relação do loteamento urbano com a cerca seiscentista, etc.
Em resumo, da cidade de Faro pode dizer-se que tem património, mas também se pode dizer que não o trata lá muito bem.
E finalmente que se pode dizer duma campanha que embarca na onda ou moda da referência ao coração minhoto de Guimarães e Braga, essas por sua vez, referenciadas ao coração de Nova Iorque dos anos 70 de Milton Glaser. A mesma pessoa que mandou passear um jovem primeiro ministro de Portugal com as suas ambições de lhe atribuir a tarefa de desenvolver uma campanha de marketing para vender o país mais um tal de plano tecnológico por considerar a ambição irrealista.